Quando o “PJ” trabalha mais que o “CLT”
Dizem que o sonho de todo executivo, após décadas de crachá no peito e reuniões intermináveis, é a tal da aposentadoria ativa. O plano parece perfeito: tornar-se consultor, ditar o próprio ritmo, escolher os projetos e, finalmente, ser dono da própria agenda. Eu também acreditei nisso. Mas, na prática, a transição de empresário e ex-CLT para consultor independente me ensinou uma lição valiosa (e cansativa): a liberdade sem limites é, na verdade, um expediente de 24 horas.
Ao abrir minha própria consultoria, descobri que o antigo regime de trabalho era, ironicamente, muito mais leve. No mundo da pessoa jurídica, o “chefe” é o contrato, e o contrato não dorme. Sem as proteções das férias remuneradas ou do horário comercial, me vi mergulhado em responsabilidades que faziam meus antigos cargos executivos parecerem um passeio no parque.
A armadilha da disponibilidade total
O problema de ser um consultor estratégico é que você não entrega apenas um relatório; você entrega a sua experiência de décadas. E o mercado, carente de senioridade, tende a sugar cada gota dessa experiência. Em pouco tempo, eu não era mais o consultor que orientava processos; eu era o profissional que trabalhava mais que antes, assumindo buchas operacionais e restriturções que, teoricamente, já deveriam estar superadas na minha carreira.
Onde foram parar as férias?
Outro choque de realidade é o financeiro-emocional. Quando você é PJ, o dia de descanso não é apenas um dia sem trabalhar; é um dia sem faturar. Essa mentalidade cria uma engrenagem perversa onde o “ócio criativo” é substituído pela culpa produtiva. Trabalhei mais, me estressei mais e vi que a estrutura de consultoria, se não for muito bem vigiada, vira uma extensão da empresa do cliente — com a diferença de que você é o único responsável pelo seu suporte técnico, seu RH e seu café.
O despertar
Passar por esse ciclo foi fundamental para eu entender que o mercado, muitas vezes, não busca um consultor, mas sim um “super-funcionário” sem encargos. Olhando para trás, esses anos de entrega total serviram como um divisor de águas. Percebi que, para ser realmente profissional e ético comigo mesmo, eu precisava resgatar algo que o excesso de consultorias me tirou: o tempo para a minha própria evolução.
Afinal, de que adianta ser dono da própria empresa se você acaba sendo o funcionário mais explorado dela?