Quando o Mercado Esquece de Ser Profissional
No artigo anterior, falei sobre como a consultoria PJ pode acabar com o nosso tempo livre. Mas, além da carga horária, existe um peso muito mais difícil de carregar: o choque cultural e ético. Após anos de estrada como executivo e empresário, a gente desenvolve um “olfato” apurado para o que funciona e, principalmente, para o que é correto. O problema é que, às vezes, o mercado não está preparado para ouvir a verdade que ele mesmo contratou.
Minha última experiência em consultoria estratégica terminou não por falta de resultados — eles estavam lá —, mas porque o preço para continuar sentado à mesa se tornou alto demais para os meus princípios.
Lideranças Despreparadas e o Ego como Gestor
Um dos grandes gargalos que encontrei foi a carência de lideranças maduras. É comum sermos chamados para “reestruturar processos”, mas logo percebemos que o processo é apenas o sintoma; a doença, muitas vezes, é uma gestão baseada no ego e no despreparo técnico.
Trabalhar com pares ou chefias que não aceitam o contraditório ou que tratam o ambiente corporativo como um campo de batalha pessoal é exaustivo. Para quem já passou por todas as etapas da carreira, ver o amadorismo ser premiado em detrimento da eficiência é um sinal claro de que o ciclo ali se encerrou.
A Discordância Ética: O Limite Não Negociável
Consultoria exige transparência. Quando essa transparência começa a incomodar porque revela falhas que ninguém quer corrigir, ou quando as decisões entram em conflito com a ética profissional, o consultor tem dois caminhos: tornar-se conivente ou retirar-se.
Escolhi o segundo. Acredito que o profissionalismo não se resume a entregar o que pedem, mas a garantir que o que está sendo feito é o certo. No momento em que o ambiente não permite que você seja um profissional pleno — com autonomia, respeito e valores alinhados —, a consultoria deixa de ser uma solução e passa a ser um problema.
Saber a Hora de Sair
Sair de um projeto de consultoria por discordância ética ou falta de profissionalismo do cliente não é uma derrota; é um selo de qualidade. É entender que a nossa marca pessoal e a nossa paz de espírito valem muito mais do que qualquer contrato de retenção.
Essa ruptura foi o empurrão que eu precisava para parar de tentar consertar o quintal dos outros e voltar a cuidar do meu próprio jardim: o conhecimento.
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